terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Desespero

As luzes da cidade apagaram-se. Já eram horas da cidade despertar e o sol acarinhar a terra.
A Luísa não tinha dormido. Tinha visto as luzes acenderem-se, os carros a passarem, um sem abrigo a dormir e as luzes a apagarem-se. Passou a noite na janela, queria que o pai chegasse. Ele prometera que vinha ao seu aniversário, mas o dia passou, o pai não deu notícias e a Luísa já tinha 5 anos e um dia.
Não demorou muito mais até a pequena Luísa adormecer na janela, o cansaço e a noite sem dormir tinham-lhe roubado as forças.
A mãe colocou-a na cama, ela também não tinha dormido. O marido não deu notícias e o voo em que ia nunca chegou ao aeroporto e ainda não foram encontrados sobreviventes.
As lágrimas corriam na sua face. Ao ver a sua filha desesperada por ver o pai... como lhe ia dar a notícia se o pior tivesse acontecido? Como iam sobreviver as duas?
O telefone tocou, e a voz do outro lado de forma curta e fria, proferiu as palavras que ninguém espera ouvir: "Bom dia, é a senhora Inês Silva, esposa do senhor Carlos Silva? Não existe uma boa maneira de dizer isto mas... precisávamos que se deslocasse ao Instituto de Medicina Legal para proceder ao reconhecimento de um corpo. Sim... do seu marido. Sei que não é a melhor altura mas precisava que me fornecesse alguns da..." Ela já não conseguiu ouvir mais nada, as lágrimas cegavam-na e aquelas palavras faziam eco na sua cabeça.
A pequena Luísa acordou com o barulho do telefone, será que o pai ligara? Mas a mãe está a chorar... "Mãe? Mãe? Que se passa? Quando o pai chega? Quem era?"
A Inês agarrou a filha nos braços, não conseguia falar, não conseguia pensar.
"Mãe! Mãe! Estás a magoar-me! Porque estás a chorar? Mãe! Mãe! Pára mãe! Não consigo respirar! Que estás a fazer? Mãe! Mãe! M..."
Tomada pelo desespero Inês não reagia às palavras da filha. "Filha a culpa é tua, se o teu pai não viesse naquele avião... não viesse para os teus anos... desculpa filha, mas a culpa é tua, perdi o teu pai por tua causa!"
A pequena Luisa não se debateu mais. Caiu no chão, o seu coração parara sem perceber o que acontecera...
A pistola estava no sítio de sempre, carregada, mas agora tinha menos uma bala. O som ouviu-se pela vizinhança mas quem vinha no carro não se apercebeu. Tocou à campainha, queria surpreender a filha. Tinha comprado a bicicleta que ela tanto queria por se ter atrasado no seu dia de anos, perdera o voo, mas ela o perdoaria. Afinal ela era a menina do papá.

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